Andam dizendo por ai que o correto é falar risco de morte ao invés do tão antigo risco de vida. Coitadinha da nossa expressão, há tanto tempo trabalhando por entre o vai e vem de falantes e escritores de nossa língua, há séculos dando um duro danado para tornar nossa comunicação expressiva e clara, e agora aparece alguém na televisão, um “profeta da boa língua”, esbravejando aos “sete cantos do Brasil” que todos nós estamos pecaminosamente incorretos. Aconselhando-nos a abandonar nossa “velha amiga de guerra”. Coitada, se eu estivesse no lugar dela, isso me faria entrar em um estado depressivo compulsivo suicida.
Bem, para não acabarmos cometendo esse erro maior, o de não respeitarmos a máxima: “panela velha é que faz comida boa”, referindo-se ao nosso velho e correto risco de vida, entrarei aqui em defesa desse inocente, e já quase condenado ao esquecimento no limbo dos arcaísmos injustiçados.
Para entendermos toda essa confusão lingüística, precisamos entender um pouco sobre Elipse. A gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra define elipse como a omissão de um termo que o contexto ou a situação permitem facilmente suprir. Pode ser a elipse do sujeito, do verbo, da preposição ou até mesmo da conjunção.
Por exemplo: se o leitor tem duvidas sobre qual seria o correto entre dizer “estar em férias” ou “estar de férias”, fico feliz em avisar-te que podes usar as duas formas. A elipse nesses dois casos acontece da seguinte forma: são omitidas as expressões “em gozo” na primeira, e “gozo de” na segunda. Assim:
“estar (em gozo) de férias”, ou
“estar em (gozo de) férias”
Sendo assim, em ambas as ocorrências da polêmica lingüística do momento, há presença de elipse também. No risco de vida, como diz o professor Luiz Roberto Pires Domingues, está oculta a expressão “perder a”, e em risco de morte “encontrar a”. Então teríamos:
“Correr risco de (perder a) vida”
“Correr risco de (encontrar a) morte”
Respire fundo caro leitor, e se antes você ficava com aquele olhar desesperado quando automaticamente sua mente soltava por sua boca a expressão risco de vida, porque alguém na televisão de uma hora para outra resolveu mudá-la para risco de morte, dizendo que aquele é risco de defunto ressuscitar, esqueça essa paranóia que querem nos fazer desistir das formas que nossos pais, avós, e bisavós utilizavam para se comunicar, e numa comunicação perfeitamente boa, obrigado.
Acho também que se alguém teve a coragem de ir ao ar dizer uma balela dessas, este não foi um professor de língua portuguesa, pois um professor deve estar inteirado de todas as teorias lingüísticas atuais, e sabendo que por mais que mesmo se esta expressão não fosse estruturalmente aceitável pela gramática da língua portuguesa, já estava cristalizada como tantas outras que existem nas mais diversas línguas.
Se fossemos excluir toda e qualquer forma de falar que qualquer um de nós achasse ilógica ou sem sentido literal correto, deixaríamos de enfiar o chapéu na cabeça, fazer a cabeça de alguém, matar o tempo...
Ainda, se comprássemos essa briga desses nossos televisivos professores, quanto ao uso desta expressão, eu mesmo seria o primeiro a lançar um movimento para a formulação de um Index da língua portuguesa, que queimaria todos os livros de autores que já utilizaram, um dia, o risco de vida para expressar o risco de vida que alguém corria. Nessa lista colocaria com todo prazer os nomes de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, dentre outros. Também colocaria, com receio de ser tachado de “Fora da Lei”, mas, com a consciência limpa por estar salvando nossa língua desses “assassinos da boa língua”, nossas leis que falam em "gratificação por risco de vida" e O Código de Ética Médico que teima em falar sobre "iminente risco de vida". Apenas não escreveria o nome de João Ferreira de Almeida tradutor da Bíblia no séc. 17 ("Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei" - II Samuel 18:13), afinal, A Bíblia é A Bíblia...
Estamos sendo bombardeados diariamente por esses “achismos” sobre o que é certo e o que é errado por meio da mídia, é preciso procurar saber como a língua funciona verdadeiramente, e não sair por ai acreditando em tudo que nos falam. Afinal, temos uma diversidade tão grande na nossa língua, e já um estudo tão aprofundado sobre os processos lingüísticos que a compõe em cada região, em cada grupo social, que dizer que qualquer forma de falar é errada, seria no mínimo, precipitação.
Chega de paranóia, chega de professores donos da verdade na televisão, nós também temos parte na construção da nossa língua.
Bem, para não acabarmos cometendo esse erro maior, o de não respeitarmos a máxima: “panela velha é que faz comida boa”, referindo-se ao nosso velho e correto risco de vida, entrarei aqui em defesa desse inocente, e já quase condenado ao esquecimento no limbo dos arcaísmos injustiçados.
Para entendermos toda essa confusão lingüística, precisamos entender um pouco sobre Elipse. A gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra define elipse como a omissão de um termo que o contexto ou a situação permitem facilmente suprir. Pode ser a elipse do sujeito, do verbo, da preposição ou até mesmo da conjunção.
Por exemplo: se o leitor tem duvidas sobre qual seria o correto entre dizer “estar em férias” ou “estar de férias”, fico feliz em avisar-te que podes usar as duas formas. A elipse nesses dois casos acontece da seguinte forma: são omitidas as expressões “em gozo” na primeira, e “gozo de” na segunda. Assim:
“estar (em gozo) de férias”, ou
“estar em (gozo de) férias”
Sendo assim, em ambas as ocorrências da polêmica lingüística do momento, há presença de elipse também. No risco de vida, como diz o professor Luiz Roberto Pires Domingues, está oculta a expressão “perder a”, e em risco de morte “encontrar a”. Então teríamos:
“Correr risco de (perder a) vida”
“Correr risco de (encontrar a) morte”
Respire fundo caro leitor, e se antes você ficava com aquele olhar desesperado quando automaticamente sua mente soltava por sua boca a expressão risco de vida, porque alguém na televisão de uma hora para outra resolveu mudá-la para risco de morte, dizendo que aquele é risco de defunto ressuscitar, esqueça essa paranóia que querem nos fazer desistir das formas que nossos pais, avós, e bisavós utilizavam para se comunicar, e numa comunicação perfeitamente boa, obrigado.
Acho também que se alguém teve a coragem de ir ao ar dizer uma balela dessas, este não foi um professor de língua portuguesa, pois um professor deve estar inteirado de todas as teorias lingüísticas atuais, e sabendo que por mais que mesmo se esta expressão não fosse estruturalmente aceitável pela gramática da língua portuguesa, já estava cristalizada como tantas outras que existem nas mais diversas línguas.
Se fossemos excluir toda e qualquer forma de falar que qualquer um de nós achasse ilógica ou sem sentido literal correto, deixaríamos de enfiar o chapéu na cabeça, fazer a cabeça de alguém, matar o tempo...
Ainda, se comprássemos essa briga desses nossos televisivos professores, quanto ao uso desta expressão, eu mesmo seria o primeiro a lançar um movimento para a formulação de um Index da língua portuguesa, que queimaria todos os livros de autores que já utilizaram, um dia, o risco de vida para expressar o risco de vida que alguém corria. Nessa lista colocaria com todo prazer os nomes de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, dentre outros. Também colocaria, com receio de ser tachado de “Fora da Lei”, mas, com a consciência limpa por estar salvando nossa língua desses “assassinos da boa língua”, nossas leis que falam em "gratificação por risco de vida" e O Código de Ética Médico que teima em falar sobre "iminente risco de vida". Apenas não escreveria o nome de João Ferreira de Almeida tradutor da Bíblia no séc. 17 ("Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei" - II Samuel 18:13), afinal, A Bíblia é A Bíblia...
Estamos sendo bombardeados diariamente por esses “achismos” sobre o que é certo e o que é errado por meio da mídia, é preciso procurar saber como a língua funciona verdadeiramente, e não sair por ai acreditando em tudo que nos falam. Afinal, temos uma diversidade tão grande na nossa língua, e já um estudo tão aprofundado sobre os processos lingüísticos que a compõe em cada região, em cada grupo social, que dizer que qualquer forma de falar é errada, seria no mínimo, precipitação.
Chega de paranóia, chega de professores donos da verdade na televisão, nós também temos parte na construção da nossa língua.


