sábado, 18 de abril de 2009

A Corujinha Boyle


Sim, ela não era apenas uma coruja com seu ninho na cabeça naquele palco inglês. Ela foi até lá para mostrar que poderia fazer aquele jurado queixudo ficar de “queixo caído”. E assim ela fez... Não sei se vocês notaram, mas, eu conseguia visualizar uma faísca de deboche no olhar congelado e sereno da corujinha inglesa. Ela irradiava contidos raios de uma deliciosa futura vingança. Vingança pelas vezes que a julgaram, assim como naquele lugar, pela sua aparência; vingança pelas tantas vezes que tentou mostrar seu dom e foi recusada antes mesmo de abrir a boca; vingança pelas vezes que um cavalheiro decidiu ajudar a moça do lado com aquelas sacolas minúsculas, enquanto ela com aquele monte de compras se esforçava para chegar em casa, só porque a outra tinha alguns quilos e anos a menos... Ah!Mas ela iria se vingar...
Quando um pais inteiro esperava mais uma trapalhada de alguém dos reality shows da vida, a corujinha cantou tal como rouxinol fagueiro que há três anos não acasalava. E o pais estupefou-se, e as gargalhadas que já se aqueciam nas milhares de gargantas
regadas pelo chá das 15:00h, explodiram em palmas invejosas e envergonhadas.

Canto estanciano

Venho agora apresentar meu canto
Que não se faz no espanto,
Mas vem no embalo do curtíssimo ócio
Banhado no suor, e no ar salgado de minha terra.

O meu canto é estanciano,
De índio, de branco, de africano.
Não se atreve ao alvo do crivo,
Talvez, não seja feito para os grandes livros.

O meu canto não tem a voz do murmurante reno
É roucamente piauitinga
O rio que agora respinga
Mas que ainda nina a lavadeira e seu pequeno.

Nunca traz a pompa do verdadeiro poeta
Mas tenta, brinca, e inveja
A felicidade moleca de pés no chão
Rondando o mundo, esse gigante pião.

O meu canto é sergipano
E traz no peito esse grito estranho
Que no amanhecer ecoa na colina
Levando os azuis para a fabricada sina.

O meu canto é anônimo
Sem cor púrpura, sem nomes árcades ou modernos,
É tão normal, tão vivo, tão externo!
Só tem Maria, António, sinônimos e antônimos...

Meu canto vem do mangue,
Onde o homem afunda e o caranguejo voa,
É espuma do Abais que num Saco descansa,
É o marulho da vida que a areia ressoa.
Demócrito Cruz Santos - Estância/SE